Se há algo que dói em qualquer ser humano é um ego atacado. A humanidade possui um senso de justiça próprio exacerbado, de modo a identificar uma injustiça contra si mesmo a quilômetros de distância; embora não perceba a injustiça que cometa a centímetros do nariz. Quando duas pessoas disputam algo, geralmente há um ávido embate, judicial ou não, pela reivindicação de algum suposto direito. Um lado sempre ganha a disputa, acarretando a perda de algo maior. Tendo a prioridade da unidade no corpo de Cristo em mente, Paulo prefere que os cristãos estejam dispostos a sofrer o dano, ao invés de causar danos aos irmãos e, consequentemente, a todo o corpo. Assim, há duas maneiras de se portar quando a questão é litígio entre irmãos. A primeira é exigir do outro todo direito que pendo merecer, custe o que custar, causando nele danos e sendo injusto com os valores do Reino. A segunda é sofrer tal prejuízo; neste caso, nem a demanda em si existiria e o Reino de Deus ganharia. O Reino de Deus não exige lucros, mas busca a paz entre seus súditos.
Aproveitando o gancho da injustiça contra um irmão, Paulo lembra os cristãos de Corinto que o cristianismo é transformador, e nunca conformador. Antes da graça, alguns deles até eram injustos, além de impuros, idólatras, adúlteros, efeminados, sodomitas, ladrões, avarentos, bêbados e maldizentes, mas não há espaço para essas práticas na nova vida em Cristo. Obviamente, um salvo pode cair em algum desses pecados, sendo perdoado e restaurado pela cruz de Cristo; contudo, um salvo não viverá mais nesse padrão pecaminoso. Por isso Paulo termina confortando-os com a justificação, a santificação e a lavagem que Deus promoveu na vida de cada cristão daquela igreja. Tal como o fez com nossas vidas, irmãos, frutos da imensa graça que nos alcançou. É somente essa transformação efetuada por Cristo que nos possibilita desprezarmos nossos direitos e egos, a fim de edificar o Reino de Deus e preservar a sua unidade.